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Produção de leite a pasto ou em confinamento: onde se lucra mais?

Por João Cesar de Resende e Duarte Vilela

No contexto mundial, o Brasil aparece como um dos países mais competitivos em termos de custos de produção de leite. Dispomos de condições climáticas altamente favoráveis para o pleno crescimento das forrageiras, praticamente o ano todo, mão-de-obra relativamente mais barata e possibilidade concreta de grandes acréscimos de produtividade, tanto pela genética, como pela alimentação, sem mesmo falar nos 90 milhões de hectares que temos de fronteira para expansão horizontal. Numa iminente disputa com potenciais concorrentes do Hemisfério Norte pelo mercado internacional de lácteos, não resta dúvida que levamos algumas vantagens, mesmo considerando os pesados subsídios praticados por esses países.

Os ajustes tecnológicos no processo de produção no campo têm acontecido de forma veloz, principalmente na direção de modernos e revolucionários modelos intensivos de produção, focados na pastagem e com possibilidade de produtividade até 20 vezes maior do que os sistemas extensivos de produção de leite a pasto sem adoção de tecnologia, ainda praticados na grande maioria das regiões produtoras do País.

A análise de experimentos conduzidos na Embrapa Gado de Leite nos últimos anos, em que se avaliou o desempenho de vacas Holandesas com potencial produtivo de 6000 kg/lactação, mostrou que a produção de leite a pasto de coast-cross (Cynodon), quando comparada com sistema em confinamento, foi a mais viável economicamente, apresentando margem de lucratividade próxima de 50% maior, mesmo tendo produzido aproximadamente 20% menos leite (Ver Tabela).

Comparativo da produção de leite a pasto e em confinamento.


Mesmo com nível de produtividade menor, lucrou-se mais produzindo leite a pasto. Contudo, para que isso ocorra é necessário que a vaca tenha à disposição forragem fresca, abundante e de boa qualidade. Nessa situação existe significativa redução de custos, principalmente com silagem e concentrados, itens que na produção de leite chegam a representar mais da metade dos custos totais. Além disso, os modelos confinados ficam em desvantagem pelos maiores investimentos em instalações e máquinas, maiores gastos com medicamentos e mão-de-obra, maiores danos que causam ao meio ambiente, maior possibilidade de contaminação do meio ambiente, odor e manejo mais difícil e caro dos dejetos acumulados nas instalações.

Outra questão: com outras forrageiras o sucesso dos sistemas de produção de leite a pasto se repete?

Na Embrapa foi também comparado o desempenho de vacas Holandesas em confinamento e pasto de alfafa, uma leguminosa de altíssimo valor nutritivo, fornecida como única fonte de alimento durante toda a lactação. A produção de leite com 4% de gordura caiu 12% a pasto (18,6 x 21,2 kg/vaca/dia)1, diferença que não se traduziu em vantagem econômica pelos maiores custos com a alimentação das vacas em confinamento.

À semelhança do que se avaliou na Embrapa, na Flórida, Estados Unidos, pesquisadores compararam sistemas de produção de leite com vacas Holandesas em confinamento e a pasto misto de Cynodon e Azevém. Também lá, os pesquisadores concluíram que a produção de leite a pasto foi 17% menor (24 e 29 kg/vaca/dia)2 e a margem bruta 10% maior (U$5,84/vaca a pasto e 5,32/vaca em confinamento). O custo mais alto da alimentação foi o principal responsável pela menor lucratividade do confinamento.


Estas pesquisas reforçam o argumento da maior competitividade dos sistemas focalizados na pastagem e indicam ser estes os modelos que devem prevalecer no futuro nos trópicos.